Há momentos em que não se trata mais de divergência política, de estilo comunicacional ou de excesso retórico. Trata-se de algo mais básico: a decisão deliberada de mobilizar o que há de mais baixo no imaginário social para manter poder.
A representação racista, a humilhação simbólica, o uso de imagens geradas por IA para desumanizar adversários não são “deslizes”, nem “provocações mal calibradas”. São técnicas. Funcionam porque ativam ressentimento, liberam crueldade e produzem coesão a partir do ódio compartilhado.
O mais inquietante não é o cinismo de quem faz isso, mas a naturalização do mecanismo. Quando a sordidez passa a ser defendida como “humor”, “autenticidade” ou “ruptura com o politicamente correto”, algo fundamental já se perdeu no espaço público: a ideia de que o poder precisa responder a algum critério mínimo de responsabilidade simbólica.
Do ponto de vista do ceticismo filosófico moderno, o problema não é apenas moral. É epistemológico e político. Uma comunidade que aprende a rir da desumanização aprende, ao mesmo tempo, a abdicar da crítica e a aceitar qualquer narrativa que reforce seus afetos mais primários.
Na filosofia prática, isso aparece com clareza: regimes que se sustentam pela gestão do ressentimento não governam para o futuro, governam para a manutenção permanente do conflito. Precisam do inimigo, da humilhação, do escândalo contínuo. Quando não há mais limite, a degradação deixa de ser instrumento e se torna o próprio modo de existir do poder.
Talvez o mais urgente hoje seja recusar essa anestesia. Não normalizar. Não relativizar. Não tratar como ruído passageiro aquilo que é método político explícito.
Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.
Uma curtida por navegador, sem cadastro.