Ceticismo e MontaigneÉtica e vida pública

A fragilidade das certezas e o cuidado com a vida pública

Lendo recente artigo sobre o avanço do fanatismo religioso na política brasileira, foi impossível não traçar um paralelo imediato com a obra da filósofa Sylvia Giocanti sobre os perigos da crença dogmática.

O artigo nos alerta sobre um Brasil que perdeu sua capacidade de conviver harmonicamente com o diferente. De ataques racistas a religiões de matriz africana em campanhas eleitorais a discursos messiânicos de “ungidos do Senhor”, vemos a fé sendo instrumentalizada como arma política.

A filosofia nos ajuda a entender o mecanismo por trás disso. Como lembra Giocanti em sua análise sobre o ceticismo, a fixação irrefletida do pensamento (o dogmatismo) pode até trazer conforto e segurança ao indivíduo, mas custa caríssimo para a sociedade. Apoiada em Nietzsche, ela nos lembra de uma verdade incômoda: “não é a dúvida, é a certeza que enlouquece”.

Quando alguém se julga portador de uma verdade absoluta e inquestionável, a convivência pacífica desmorona. O fanático, movido não por uma superioridade moral, mas pelo medo da incerteza e da pluralidade, sente-se no direito (e até no dever divino) de violentar o outro e impor sua visão de mundo a qualquer custo. A política deixa de ser o espaço da negociação e vira uma cruzada de aniquilação.

Democracias não sobrevivem à brutalidade dogmática. Elas exigem o que os filósofos antigos chamavam de praotès (brandura): a coragem de tomar distância das próprias opiniões, o reconhecimento da diversidade humana e o respeito inegociável ao Estado laico.

O Brasil já soube misturar padres, pastores e pais de santo em uma mesma corrente de solidariedade. Resgatar essa tolerância não é um sinal de fraqueza das nossas crenças, mas a única garantia de sobrevivência das nossas instituições.

Como líderes, profissionais e cidadãos, estamos fomentando ambientes de diálogo e pluralidade ou estamos cedendo ao conforto perigoso das certezas absolutas?

Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.

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