Mais da metade dos brasileiros — 54% da população, segundo pesquisa coordenada por Pablo Ortellado (USP) em parceria com a More in Common e a Quaest — não se identifica nem com o lulismo, nem com o bolsonarismo.
São chamados de “os invisíveis”: conservadores em costumes, mas menos radicais; silenciosos, mas não despolitizados. Essas pessoas formam o centro moralmente conservador e socialmente ambivalente do país.
Elas valorizam a família, a ordem e a fé, mas também reconhecem a importância de políticas públicas e da proteção social. Não se engajam nas brigas das redes — não por indiferença, mas por cansaço da polarização.
Do ponto de vista filosófico, esse comportamento guarda algo do ceticismo filosófico montaigniano-giocantiano: a recusa em aderir cegamente a crenças absolutas e a disposição em suspender o juízo (epoché, na linguagem de Sexto Empírico).
Em vez de reagir com fúria ou fé, o “invisível” observa, duvida e busca serenidade — uma espécie de ataraxia política.
Nietzsche advertia que o cansaço das grandes certezas pode gerar moralismos superficiais. E, de fato, parte desses cidadãos encontra abrigo em símbolos morais (“família”, “ordem”) que funcionam como antídoto à instabilidade.
Mas há também, nesse silêncio, uma sabedoria de resistência: a percepção de que as certezas ideológicas são muitas vezes o combustível da intolerância.
O paradoxo brasileiro é esse: somos moralmente conservadores, mas socialmente solidários.
Entre a crença e o pragmatismo, os “invisíveis” expressam uma forma de realismo cético — querem estabilidade e dignidade, sem paixões políticas que destruam a convivência.
Às vésperas de 2026, esse grupo representa o campo decisivo das eleições. Eles não marcham, não gritam, mas votam — e sua exigência não é messiânica: pedem moderação, políticas concretas e convivência civilizada.
Em tempos de certezas inflamadas, talvez a virtude mais revolucionária seja a moderação. Como ensinava Maurice Merleau-Ponty, ressoando Michel de Montaigne, “a sabedoria é uma resolução da irresolução”.
Fonte principal: O GLOBO — “Os invisíveis: como pensa a massa de eleitores que rechaça a polarização e pode decidir as eleições em 2026”, 5/10/2025.
Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.
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