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Todos deviam andar de bengala (ao menos uma vez)

Desde que comecei a andar de bengala devido a uma recuperação por cirurgia na coluna, descobri uma coisa inesperada: o mundo ainda pode ser muito educado, civilizado. Não o tempo inteiro, claro, mas existe uma camada de gentileza subterrânea que só aparece quando você passa a caminhar apoiado num pedaço de madeira ou alumínio.

Foi uma cirurgia na lombar (L4-L5) que me trouxe a essa experiência antropológica involuntária. Antes dela, eu circulava anônimo entre os anônimos: mais um corpo funcional atravessando ruas, filas, elevadores e calçadas. Depois da bengala, virei uma espécie de patrimônio frágil da humanidade.

As pessoas seguram portas com solenidade. Motoristas reduzem a velocidade. Até pessoas nas filas desenvolvem uma delicadeza quase japonesa ao perguntar: “senhor, prefere passar na frente?”

A bengala reorganiza moralmente o espaço.

Descobri também que ela produz uma curiosa suspensão da agressividade urbana. Ninguém disputa passagem com alguém de bengala. Você deixa de ser concorrente no trânsito humano e passa a ocupar outra categoria metafísica: a dos que precisam chegar sem pressa.

É curioso porque a bengala não muda o caráter de ninguém. Ela apenas torna visível uma vulnerabilidade que, no fundo, todos compartilham e normalmente escondem atrás de passos firmes, agendas lotadas e dores silenciosas.

Talvez a sociedade funcione assim: não exatamente pela bondade contínua das pessoas, mas pela aparição ocasional de sinais que lembram aos outros que somos frágeis.

A bengala é um aviso portátil da condição humana.

E há ainda um detalhe importante: a bengala confere certa dignidade teatral. Você não manca apenas; você atravessa o ambiente como alguém que voltou de uma campanha militar particularmente burocrática. Existe nela uma mistura de filósofo inglês aposentado, mafioso cansado e professor universitário que sofreu por excesso de PDFs.

A bengala obriga o mundo a desacelerar meio segundo ao seu redor. E meio segundo de consideração humana, hoje em dia, vale mais do que muito tratamento terapêutico.

Claro que há limites. Não romantizemos hérnias de disco. Troco imediatamente toda essa gentileza pública por uma coluna nova em folha. Mas a experiência deixa uma pequena conclusão sociológica: as pessoas talvez estejam menos endurecidas do que parecem. Talvez só falte um sinal visível de fragilidade para que reapareça nelas alguma delicadeza esquecida.

Ou talvez todos devêssemos andar de bengala de vez em quando, apenas para lembrar aos outros (e a nós mesmos) que ninguém atravessa o mundo inteiramente sozinho.

Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.

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