Ética e vida públicaTrabalho e vida profissional

Liderança, saúde mental e ceticismo filosófico

Uma pesquisa divulgada pela Conquer In Company mostrou que 90% dos líderes trabalham sob pressão constante, 78% assumiram cargos de liderança sem formação suficiente e cerca de 70% já pensaram em deixar a função em busca de mais qualidade de vida. Os números chamam atenção, mas talvez revelem algo mais profundo: a persistência de um ideal de liderança baseado na certeza.

Espera-se que líderes decidam rapidamente, conduzam mudanças, resolvam conflitos, desenvolvam pessoas e mantenham o rumo da organização mesmo quando o cenário é instável. A pesquisa mostra justamente o contrário: eles operam em contextos marcados pela incerteza.

É aqui que o ceticismo filosófico moderno, especialmente na leitura montaigniana desenvolvida por Sylvia Giocanti, oferece uma perspectiva interessante. Montaigne não entende a incerteza como uma falha a ser eliminada. Ela é uma condição permanente da existência humana. A dificuldade surge quando exigimos de nós mesmos uma segurança que o mundo não pode fornecer.

Talvez parte do sofrimento das lideranças contemporâneas decorra desse desencontro: cobra-se convicção absoluta onde só é possível exercer julgamento prudente, adaptação contínua e atenção às circunstâncias.

A filosofia prática inspirada em Montaigne não conduz à paralisia. Ela convida a uma relação mais lúcida com os limites do conhecimento, com a contingência dos acontecimentos e com a necessidade de decidir sem garantias finais.

Num ambiente de mudanças aceleradas, essa pode ser uma competência tão importante quanto qualquer ferramenta de gestão: aprender a agir bem sem a ilusão da certeza.

Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.

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