O artigo de Fernando Gomes, publicado no Estadão em 17 de abril de 2026, aponta um problema que se tornou silencioso no mundo do trabalho: a ideia de “resiliência” foi deslocada para justificar pressão contínua.
Hoje, espera-se que profissionais sustentem alta performance, absorvam demandas crescentes e mantenham estabilidade sem pausa. Isso passou a ser tratado como virtude.
Do ponto de vista do cérebro, esse modelo não se sustenta. O funcionamento cerebral depende de ciclos de ativação e recuperação. O estresse, quando pontual, mobiliza energia e foco. Quando contínuo, altera o equilíbrio: o cortisol elevado compromete memória, tomada de decisão e regulação emocional. O resultado aparece no cotidiano: fadiga mental, perda de concentração, irritabilidade, desmotivação. Em estágios mais avançados, surgem ansiedade, depressão e burnout.
Esse diagnóstico abre uma questão que ultrapassa a gestão e entra no campo da filosofia prática. Como orientamos a ação quando a exigência se torna permanente?
O ceticismo filosófico moderno ajuda a tensionar uma suposição que raramente é examinada: a de que valor profissional está ligado à capacidade de suportar qualquer condição. Essa associação não é neutra. Ela reorganiza a forma como o limite é percebido.
A filosofia prática desloca o problema. O limite deixa de aparecer como falha individual e passa a funcionar como indicador de descompasso entre exigência e condição real de funcionamento.
Nesse ponto, a noção de resiliência precisa ser recolocada. Resiliência envolve adaptação e recuperação. Depende de pausas, de ritmo e de condições mínimas de funcionamento. Não é uma propriedade isolada do indivíduo, mas uma relação entre sujeito e ambiente.
Isso leva a uma pergunta mais ampla: que tipo de vida profissional estamos sustentando quando valorizamos a performance contínua?
Neurociência e filosofia prática convergem aqui: desempenho sustentável não se organiza por intensificação constante, mas por equilíbrio. Um cérebro sobrecarregado continua operando, mas com perda progressiva de flexibilidade, aprendizado e regulação. Rever o uso da ideia de resiliência não é um detalhe conceitual. É uma mudança de critério relevante para a saúde.
Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.
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