Ceticismo e MontaigneFilosofia prática

Montaigne e a experiência de quase morte

Há poucos dias, o neurocientista espanhol Álex Gómez Marín relatou ao jornal argentino La Nación a experiência que viveu durante sete segundos de morte clínica. Ele descreveu ter visto uma luz dourada, sentido uma calma profunda e uma certeza silenciosa de que “tudo estava bem”. Não foi — disse ele — sonho nem alucinação, mas algo “mais real que a própria realidade”.

Ao ler isso, lembrei imediatamente de um dos textos mais impressionantes de Michel de Montaigne: “Do Exercício”, capítulo 6 do Livro II dos Ensaios.

Nele, Montaigne descreve um acidente de cavalo que o deixou desfalecido por horas — uma experiência liminar, entre a vida e a morte, em que sentiu doçura, leveza, ausência de dor e de pensamento articulado: “Parecia-me que a vida estava suspensa a meus lábios e eu fechava os olhos a fim de ajudá-la a desprender-se de mim, comprazendo-me nesse estado de langor e também em me sentir esvair.”

Como Gómez Marín, Montaigne não fala de transcendência dogmática, mas de uma vivência corporal e subjetiva que dissolve o terror da morte. Ele conclui que o pavor é frequentemente maior na imaginação do que no acontecimento real: tememos a morte mais do que a sentimos.

Esse é o cerne de sua filosofia prática: exercitar-se não para vencer a morte, mas para domesticá-la. Aproximar-se dela através do pensamento, da experiência, da observação de si. Montaigne transforma o episódio pessoal num exercício filosófico: “Para se acomodar ao pensamento da morte creio ser preciso ter-se aproximado dela.”

O neurocientista espanhol — mesmo vindo de um campo que busca explicações empíricas — concluiu algo semelhante: “Acho que morrer é algo muito bonito. Temos muito medo, mas quem já esteve com um pé lá e voltou sabe que é uma experiência bela. E, enquanto isso, é importante lembrar que também há vida antes da morte.”

Montaigne teria assentido com um leve sorriso cético. Porque a morte, quando chega, costuma ser menos grandiosa e mais suave do que o medo que projetamos sobre ela.

Em tempos em que a morte é frequentemente varrida para os bastidores da vida social, vale lembrar: filosofar é aprender a morrer, não no sentido mórbido, mas para viver com mais leveza, presença e coragem.

Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn. Referência mencionada na publicação.

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