Ao longo da história, a humanidade encontrou no bode expiatório um dos mecanismos mais persistentes para lidar com o desconforto em reconhecer nossa ignorância e nossos erros.
Sempre que a realidade contraria nossas crenças sobre quem somos — justos, racionais, virtuosos — buscamos um culpado externo, alguém sobre quem possamos projetar nossas falhas.
É o velho ritual simbólico de purificação: se algo deu errado, é porque alguém errou. Assim, preservamos a ilusão de coerência — mas às custas do diálogo, do respeito e da boa convivência.
A psicologia moderna chamaria isso de válvula de escape da dissonância cognitiva: uma forma de evitar o desconforto de rever convicções, de admitir ambiguidades, de reconhecer que o “bem” e o “mal” não são territórios separados por muros, mas zonas cinzentas dentro de nós.
A história humana pode ser lida como uma longa sucessão de “culpados úteis”: bruxas, estrangeiros, minorias, inimigos ideológicos. Mudam os nomes; permanece a lógica.
Esse mecanismo adoece as relações humanas. Quando cada grupo precisa encontrar um culpado para se sentir íntegro, o laço social se rompe, e o diálogo dá lugar à polarização. O espaço público se transforma em um campo de acusações morais — e a busca pelo acordo é substituída pela busca por culpados.
O ceticismo filosófico moderno, sobretudo em Montaigne e na leitura contemporânea de Sylvia Giocanti, propõe uma alternativa rara e corajosa: suspender o julgamento antes de apontar o dedo. O filósofo cético não nega a diferença entre o justo e o injusto, mas duvida do excesso de confiança com que julgamos.
Ele compreende que a consciência humana é feita de hesitações — e que aprender a viver bem é aprender a duvidar de si com honestidade. Em vez de projetar o erro no outro, o filósofo cético o reconhece em si — não para se punir, mas para libertar-se da ilusão de pureza.
Montaigne dizia que “Somos todos feitos de pedaços e de costuras, e de tal maneira compostos e ligados que cada peça, cada momento, desempenha o seu papel.”
Essa lucidez desmonta o teatro do bode expiatório. Ao reconhecer nossa própria incoerência, dissolvemos a necessidade de encontrar inimigos morais.
O olhar cético, montaigniano e giocantiano, convida a uma ética mais leve e lúcida: compreender antes de condenar, observar antes de reagir, duvidar antes de ofender.
Talvez esse seja o antídoto de que precisamos em uma época de certezas raivosas — uma época em que todos querem salvar o mundo, mas poucos querem se rever.
O ceticismo filosófico moderno, longe da apatia, é um gesto de coragem: olhar o outro sem precisar de um culpado, e olhar a si sem precisar de absolvição.
Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.
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