A frase de Ariano Suassuna parece simples, mas contém uma posição filosófica bastante exigente. A esperança, aqui, não é ingenuidade nem recusa da realidade. Ela nasce justamente depois do contato com a precariedade, com o fracasso, com aquilo que escapa ao nosso controle.
É difícil não aproximar esse “realismo esperançoso” de uma dimensão importante do ceticismo filosófico moderno de Michel de Montaigne.
Em Montaigne, especialmente na leitura da filósofa francesa Sylvia Giocanti, o ceticismo filosófico não conduz a uma vida paralisada pela dúvida. A inquietude permanece, porque pertencemos a um mundo instável e somos nós mesmos seres móveis, falíveis e contraditórios. O problema filosófico passa a ser outro: como viver bem sem exigir da existência uma segurança que ela não pode oferecer?
A resposta montaigniana não está em eliminar a incerteza, mas em aprender a habitar a experiência com menos rigidez. Suspender certezas excessivas, perspectivar julgamentos, aceitar a variação das coisas e de si mesmo pode reduzir parte da violência que exercemos contra o mundo quando pretendemos que ele corresponda às nossas expectativas.
É nesse ponto que Suassuna se aproxima, a seu modo, de Montaigne. Quando diz que procura “transformar meu desespero em motivo de riso para mim e para os outros”, o riso não apaga o desespero. Ele altera nossa relação com ele.
Também em Montaigne, a sabedoria não consiste em deixar de sofrer, duvidar ou temer. Consiste em não permitir que essas experiências ocupem todo o horizonte da vida.
O “realismo esperançoso” pode ser entendido assim: ver o mundo sem ilusões e, ainda assim, permanecer disponível para ele.
Entre o otimismo ingênuo e a resignação, existe uma forma mais difícil de esperança: aquela que já conheceu a incerteza.
Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.
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