Ceticismo e MontaigneFilosofia prática

Estar sozinho e sentir-se só são a mesma coisa?

Uma pesquisa recente, baseada em mais de 218 mil pessoas de quase 150 países, encontrou cerca de uma em cada cinco relatando esse sentimento em um dia típico. Mas o número esconde diferenças importantes: nos países de alta renda, são cerca de 16%; nos de baixa renda, quase um terço da população. Confiança, redes de apoio, saúde, emprego e condições materiais importam. Sentir-se só, portanto, não é apenas um estado psicológico. Também depende da qualidade dos vínculos e do mundo social em que vivemos.

Há mais de quatro séculos, Montaigne abordou o problema por outro ângulo. Em “Da solidão”, ele percebe que afastar-se das pessoas não basta para encontrar verdadeiro recolhimento. Podemos abandonar a Corte, os negócios, viajar, procurar o isolamento — e continuar levando conosco nossas inquietações. Como escreve, “não basta […] evitar a multidão”: levamos a nós mesmos conosco.

Por isso, sua proposta não é simplesmente isolar-se. Montaigne não sugere que deixemos de amar, conviver ou usufruir aquilo que recebemos do mundo. Ao contrário: diz que devemos ter, se possível, “filhos, fortuna e principalmente saúde”, evitando nos prender a esses bens a ponto de fazer nossa felicidade depender inteiramente deles. É nesse contexto que aparece sua célebre arrière-boutique: um recanto inteiramente nosso, no qual possamos nos recolher e fazer companhia a nós mesmos.

Talvez esteja aí uma distinção importante para o debate contemporâneo. Precisamos dos outros, mas precisamos também ser capazes de permanecer conosco quando os outros não estão. Montaigne chega a dizer que “a coisa mais importante do mundo é saber pertencermo-nos”. Na leitura de Sylvia Giocanti, esse movimento integra a dimensão terapêutica do ceticismo montaigniano: um cuidado de si que não pretende eliminar a instabilidade da existência, mas tornar nossa relação com ela menos angustiada.

Isso não significa reduzir o problema a uma questão individual. A pesquisa mostra justamente o contrário: vínculos confiáveis e condições sociais concretas fazem enorme diferença. Montaigne acrescenta outra camada: o que acontece quando a presença do outro se torna condição para conseguirmos estar conosco mesmos? A resposta não é aprender a não precisar de ninguém. É usufruir da amizade, do amor e da companhia sem fazer desses bens externos o fundamento inteiro de nossa possibilidade de viver.

No final do ensaio, Montaigne deixa uma advertência extraordinariamente atual: “Recolhei-vos em vós, mas antes preparai-vos para vos receber.” E acrescenta: “Pode-se errar na vida solitária como quando se vive na sociedade.” Talvez seja justamente aí que a pesquisa contemporânea encontre a terapêutica cética de Montaigne: nem estar acompanhado significa necessariamente não se sentir só; nem estar sozinho significa saber estar consigo.

Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.

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