Leio sempre com interesse os textos de Leandro Karnal, sobretudo quando ele consegue fazer a filosofia circular fora do seu conforto acadêmico. O artigo sobre Sócrates e os sofistas é um bom exemplo disso: provocativo, elegante e eficaz ao nos forçar a abandonar certezas morais fáceis.
Talvez, porém, a força retórica do texto dependa de um contraste que merece ser afinado. A escolha entre Sócrates e o sofista — verdade ou eficácia, coerência ou sobrevivência — funciona muito bem como experimento mental, mas corre o risco de transformar uma tensão real em um dilema excessivamente limpo.
A prática jurídica contemporânea, por exemplo, não opõe verdade e defesa. Ela institui diferentes regimes de verdade: factual, probatório e processual. O direito ao silêncio não relativiza a verdade; regula quem pode exigi-la, quando e em que condições. A estratégia do advogado não suspende a verdade, mas a submete a procedimentos públicos. Isso não é sofística no sentido clássico, mas retórica normatizada, atravessada por regras e responsabilidades.
Também vale cautela ao tratar Sócrates como alguém que só pôde “morrer pela verdade” porque estava protegido por sua posição social. A morte de Sócrates não se oferece como modelo universal de ação, mas como figura-limite: um gesto que expõe o custo de sustentar uma forma de vida inteiramente comprometida com a palavra pública. Ele não concorre com o advogado penal; ocupa outro plano, anterior à separação entre técnica e moral.
Quanto aos sofistas, o mérito do texto está em afastá-los da caricatura platônica. Mas talvez seja preciso resistir à tentação simétrica de transformá-los em emblemas do realismo moderno. O problema da sofística não é cobrar, nem lidar com casos concretos, mas a dificuldade de estabelecer critérios internos de responsabilidade discursiva: responder pelos efeitos do que se faz vencer.
Por fim, a analogia com o algoritmo é sugestiva, mas inquietante por outra razão: o algoritmo não persuade, não argumenta, não assume riscos. Ele correlaciona, condiciona, otimiza. Talvez represente menos a vitória do sofista do que algo mais pobre: uma racionalidade sem palavra.
O desafio contemporâneo, então, talvez não seja escolher entre Sócrates e os sofistas, mas pensar como a eficácia técnica pode ser atravessada por exigências de responsabilidade, e como a verdade pode sobreviver sem se converter em moralismo. Nesse ponto, o texto de Karnal é menos uma conclusão do que um convite — e é assim que o leio, como admirador.
Para continuar a reflexão
- Chimpanzés, evidências e a coragem de mudar de ideia — sobre revisão de crenças diante de novas evidências.
- Julgar menos, sustentar mais — sobre julgamento e responsabilidade.
Texto de referência: artigo de Leandro Karnal sobre Sócrates e os sofistas.
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