O psicanalista Massimo Recalcati resume a felicidade como a capacidade de amar o que se tem e saber desejar o que importa. A ideia permite ir além de uma interpretação conformista.
O problema não é desejar. É absolutizar o desejo: acreditar que, quando chegarmos ao próximo cargo, salário, reconhecimento ou patrimônio, tudo finalmente fará sentido.
O ceticismo filosófico moderno, de Montaigne à leitura de Sylvia Giocanti, ajuda a interrogar essa fantasia de completude. Não é a vida que necessariamente está vazia; é a expectativa de que ela possa oferecer uma totalidade sem falta que talvez nos condene à frustração.
Felicidade não precisa ser um estado final. Pode ser uma relação móvel com o real. Aceitar que a vida é finita, instável e imperfeita não significa desistir de desejar: significa não sequestrar o desejo com promessas de plenitude.
“Amar o que se tem” não é conformismo. É lucidez sem ilusões — uma maneira de continuar desejando, criando, investindo e vivendo, sem exigir que o mundo encerre todas as nossas perguntas.
Sem promessa de fechamento ou linha de chegada: movimento, vínculo e realidade. Talvez isso já seja bastante.
Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.
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