No ensaio “Da experiência”, Michel de Montaigne descreve algo simples e exigente: viver bem envolve acompanhar a vida tal como ela se apresenta. O corpo conta, os hábitos contam, as variações contam. A experiência ensina a encontrar uma medida possível, ajustada ao que se vive aqui e agora.
Essa perspectiva ajuda a ouvir de outro modo o final da Nona Sinfonia de Beethoven. A alegria aparece no quarto movimento coral, depois de uma longa travessia de tensões. Quando a voz humana entra, o regime da obra se desloca.
“O Freunde, nicht diese Töne!” — “Amigos, não esses sons.”
Em seguida, uma palavra é lançada: “Freude!” — alegria. E a obra amplia esse chamado até a imagem de um abraço coletivo.
Essa alegria não se apoia em garantias históricas nem em promessas de reconciliação final. Ela precisa ser assumida em comum, sustentada por vozes e reiterada no próprio ato de dizer. Há nisso uma afinidade com o que Montaigne chama de contentamento.
Em “Da experiência”, o contentamento se forma no contato com o presente, na atenção ao corpo e na aceitação da variabilidade da vida. É uma alegria possível, situada, exposta ao desgaste e dependente de cuidado.
O coro da Nona pode ser ouvido nesse registro: a alegria pede retomada constante e cuidado coletivo. Sem esse trabalho, a convivência se desfaz aos poucos, por cansaço e endurecimento.
Talvez seja por isso que esse final ainda nos alcance. A vida comum se sustenta quando encontramos formas praticáveis de contentamento partilhado, mesmo em tempos de desencanto.
Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.
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