Ética e vida públicaFilosofia prática

IA e o valor do humano além da utilidade

O advento da inteligência artificial desloca uma visão antiga: durante séculos, fomos valorizados como repositórios de conhecimento, seres de memória e razão. Hoje, algoritmos calculam, armazenam e organizam informações com uma eficácia que nenhum de nós pode alcançar.

Se aceitarmos a lógica utilitarista, a conclusão parece sombria: tornamo-nos “desnecessários”. Mas há outra possibilidade. Libertados da função de sermos máquinas de memória, podemos reencontrar a dignidade em nossa contingência amorosa.

Montaigne nos lembra que cada pessoa traz em si a forma inteira da condição humana: frágil e instável, mas capaz de vínculos e criação. Nietzsche fala da inocência do devir: a vida não precisa ser necessária para ter valor. Hannah Arendt mostra que a ação humana inaugura o novo, o inesperado, aquilo que nenhuma previsão pode esgotar.

Talvez estejamos diante de uma virada: se a IA ocupa parte do espaço da necessidade técnica, cabe ao humano assumir o espaço da gratuidade que edifica. Não somos valiosos apenas porque somos úteis. Somos capazes de amar, hospedar, perdoar e criar mundos comuns.

O futuro não nos pede eficiência comparável às máquinas, mas a coragem de afirmar a dignidade do que é gratuito, supérfluo e contingente — justamente aquilo que torna a vida humana insubstituível.

Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.

0 curtidas

Uma curtida por navegador, sem cadastro.

Participe da conversa