Uma das ideias mais interessantes que encontrei na leitura de Sylvia Giocanti é esta: não há verdadeiro cuidado de si sem cuidado do mundo.
À primeira vista, a fórmula parece estranha. Quando pensamos em “cuidar de si”, imaginamos recolhimento, interioridade, proteção. Mas, no ceticismo filosófico moderno de Montaigne, o movimento é outro.
Nós não nos constituímos isoladamente. Tornamo-nos quem somos na relação com os outros, com os costumes, com a linguagem, com os lugares, com os papéis que desempenhamos e com os acontecimentos que nos atravessam.
O movimento é contínuo: mundo → relação com os outros → constituição de si → distanciamento crítico → nova relação com o mundo → nova transformação de si.
Por isso, o “cuidado do mundo” não significa querer controlá-lo, corrigir tudo ou protegê-lo de toda incerteza. Significa manter-se atento, interessado e disponível ao real, deixando que o contato com aquilo que é exterior a nós também nos transforme.
Há aqui uma lição montaigniana: amadurecer não é finalmente “encontrar quem somos”, como se houvesse um eu definitivo à espera de ser descoberto, mas aprender a nos constituir e reconstituir continuamente, na relação com um mundo que também não para de mudar.
Cuidar de si, então, não é fechar-se.
É aprender a voltar a si depois de ter passado pelo mundo.
Texto originalmente publicado pela RZK Philosophical Counseling no LinkedIn.
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