Checagem de 29 set 2026
Nenhuma mudança material confirmada hoje.
85 Anos de Ousadia · Maracanã · 18.12.2027. Um guia de preparação sobre voz, corpo, liberdade, máscara, interpretação e reinvenção — construído para mudar conforme a turnê de 2027 revelar seu repertório real.
Fatos confirmados, evidência de repertório e atualização diária em uma camada separada das interpretações editoriais.
Nenhuma mudança material confirmada hoje.
A pergunta central deste especial não é “quem é o verdadeiro Ney por trás da máscara?”. É quase o contrário: e se máscara, figurino, voz, gesto e interpretação forem modos de produzir verdade? Ney oferece um caso raro em que teatralidade não se opõe à autenticidade; a autenticidade aparece justamente como capacidade de inventar formas de presença.
Antes da estreia, o radar separa o que vem de recorrência recente, o que pertence ao legado indispensável e o que já foi sinalizado para 2027.
Setlists de 2025–2026 sustentam um núcleo recorrente: “Eu quero é botar meu bloco na rua”, “Sangue Latino”, “A Maçã”, “Poema”, “Balada do Louco”, “Pro Dia Nascer Feliz”, “Homem com H” e outras.
Secos & Molhados, “Homem com H”, “Mal Necessário”, “Bandido Corazón” e outras entram como repertório de preparação — não como previsão.
Ney afirmou que a primeira metade preserva bastante do show anterior, que a segunda muda e fica mais energética, e antecipou a música de encerramento.
A lista não pretende adivinhar o Maracanã. Ela funciona como preparação: repertório recente + história + pistas da nova turnê.
A rota de escuta reúne 30 gravações de Ney Matogrosso, cada uma com seu link Spotify validado. “Simples Desejo” permanece no tour book como pista anunciada para 2027, mas fica fora da playlist enquanto não localizamos no Spotify uma gravação de Ney.
Abrir o corpo ao espaço público: a canção transforma presença em gesto político sem precisar virar programa partidário.
Ouça a marcha-rancho atravessada por uma pulsação de palco mais roqueira; a entrada funciona como declaração de disponibilidade corporal.
Liberdade não aparece como estado interior, mas como prática: sair, ocupar, expor-se e aceitar o risco de aparecer.
Ney faz da canção uma celebração de sobrevivência e excesso: não escapar do caos, mas inventar beleza dentro dele.
Repare no contraste entre refrão expansivo e ataque da banda; a interpretação recusa a nostalgia e devolve urgência à música.
A vitalidade pode ser entendida como resistência estética: persistir não é conservar-se intacto, é continuar produzindo forma.
O espaço urbano aparece como compressão social, mas a voz de Ney transforma confinamento em tensão cênica.
Preste atenção nos metais, nos cortes rítmicos e na maneira como a dicção cria uma sensação de urgência coletiva.
A cidade organiza nossos movimentos, mas também oferece frestas: liberdade concreta começa no modo como atravessamos espaços que não controlamos.
A canção trabalha a inteligência de quem percebe padrões, mas desconfia do conforto de achar que já entendeu tudo.
Ouça a elasticidade rítmica e a ironia da interpretação; Ney nunca deixa a certeza repousar por muito tempo.
Saber pode abrir ou fechar a experiência. A questão não é acumular certezas, mas conservar mobilidade diante do que resiste ao nosso esquema.
O voo do pavão vira imagem de uma liberdade que não pede autorização para ser exuberante.
Perceba a percussão marcada, o espaço psicodélico e a teatralidade da emissão vocal.
Há formas de autonomia que não se definem pela retirada, mas pela aparição: tornar-se visível pode ser uma maneira de recusar o lugar que nos foi dado.
Ney desloca o romantismo da posse para a intensidade da presença, preservando a ambiguidade entre entrega e risco.
Ouça o modo como a voz alonga certas frases sem torná-las sentimentais; a tensão vem do controle, não do excesso.
Desejar alguém não garante direito sobre o outro. A canção permite pensar a diferença entre entrega, promessa e apropriação.
A canção encena um amor que tenta existir sem transformar desejo em propriedade.
Observe como Ney alterna doçura e ironia, evitando a leitura puramente romântica.
Liberdade amorosa exige suportar a exterioridade do outro: amar sem reduzir a pessoa ao papel que ela desempenha para nós.
Uma declaração amorosa conhecida ganha em Ney uma qualidade quase cerimonial: intensidade sem submissão.
Preste atenção à sustentação da linha melódica e ao modo como a voz cria intimidade em escala grande.
A experiência amorosa pode produzir um paradoxo: quanto mais singular alguém se torna para nós, menos cabe em qualquer definição geral de amor.
Memória e distância aparecem como forças que reorganizam o presente, não como simples arquivo do passado.
Ouça as inflexões de latinidade e a maneira como Ney dá peso às pausas.
Lembrar não é recuperar algo intacto: toda memória é uma operação presente sobre uma ausência.
Ney trata o rock como atitude e jogo de cena: irreverência que desmonta a fronteira entre centro e margem do espetáculo.
Repare na guitarra, no humor e nas mudanças de registro da voz.
A identidade pode ser lateral e, ainda assim, poderosa: nem toda existência precisa ocupar o centro para produzir sentido.
A canção transforma necessidade em campo de escolha, recusando a ideia de que circunstâncias determinem completamente a ação.
Ouça o balanço latino e a dicção quase conversada, que mantém a música em movimento.
Mesmo quando não escolhemos a situação, ainda escolhemos modos de habitá-la. Liberdade não exige soberania total.
Imaginar a finitude radical funciona como teste das prioridades que organizam a vida ordinária.
Perceba como a batida dá leveza a um tema existencialmente pesado.
A consciência da morte não precisa produzir paralisia; pode desinflar hierarquias artificiais e devolver urgência ao que importa.
Uma das assinaturas de Ney articula pertencimento sem pureza: identidade como mistura, orgulho e conflito.
Ouça o ataque quase percussivo da voz e a maneira como a canção sustenta simultaneamente solenidade e desafio.
Identidade não precisa ser essência. Pode ser uma narrativa encarnada, histórica e contraditória, assumida sem virar prisão.
A aparente simplicidade vira desconforto: o óbvio pode ser justamente aquilo que já não conseguimos habitar sem estranhamento.
Ouça a desaceleração, o piano e o espaço entre as frases.
O familiar não é sinônimo de transparente. Muitas vezes é preciso estranhar o evidente para voltar a percebê-lo.
Ao cantar um texto de Cazuza, Ney transforma amizade, perda e permanência em presença vocal.
Repare no controle de dinâmica: emoção intensa sem colapso da forma.
A memória de quem morreu não é simples conservação; ela altera quem continua vivo. O ausente participa do presente por transformação.
A figura do “louco” inverte o julgamento social: talvez a normalidade seja apenas o nome do costume majoritário.
Ouça o humor, a teatralidade e a facilidade com que Ney alterna fragilidade e desafio.
A pergunta filosófica não é quem é normal, mas quem tem poder de definir a norma — e que formas de vida ficam empobrecidas por ela.
Ney transforma a urgência juvenil do rock em afirmação madura de presença, sem neutralizar o desejo.
Ouça como a voz preserva energia sem imitar a gravação original do Barão Vermelho.
Recomeçar não exige apagar o desgaste. Há uma esperança adulta que nasce justamente da consciência do tempo.
O humor desmonta códigos de masculinidade ao exagerá-los até que se tornem visíveis como construção.
Observe corpo, gesto, articulação e ambiguidade vocal: a performance é parte da música.
Gênero aparece como repertório de gestos e expectativas socialmente ensinados. Exagerar a norma pode ser uma forma de revelá-la.
A dança e a metamorfose deslocam identidades fixas: tudo parece capaz de virar outra coisa.
Ouça a circularidade rítmica e a relação entre repetição e transe.
Transformação não é acidente que acontece a uma identidade pronta; talvez seja o próprio modo de existir de uma identidade viva.
Uma canção mínima que faz do silêncio e da escuta acontecimentos, não ausências.
Repare no espaço entre voz e acompanhamento: menos informação produz mais atenção.
Escutar é admitir que o sentido não está inteiro em nós. O silêncio pode ser condição de relação, e não vazio.
A beleza melódica carrega uma memória de destruição que impede a estética de virar mero ornamento.
Ouça o contraste entre delicadeza vocal e gravidade histórica.
A arte pode tornar sensível aquilo que números e abstrações deixam escapar, sem transformar sofrimento em espetáculo fácil.
O “bandido” amoroso é figura de desejo indisciplinado, em que sedução e perigo se misturam.
Perceba a tensão entre teatralidade e melodia: Ney nunca deixa o personagem virar confissão literal.
Interpretar um personagem é experimentar possibilidades de si sem precisar reduzi-las à autobiografia.
A canção recusa identidades unívocas e reúne contrários: santo e veneno, remédio e ameaça, presença e fuga.
Ouça como Ney sustenta ambivalência sem buscar resolução.
Ser alguém pode significar suportar contradições sem apressar uma síntese. A coerência absoluta talvez seja uma ficção empobrecedora.
A recusa da classificação vira programa estético: misturar genealogias, corpos, vozes e tradições.
Repare na densidade rítmica e no caráter declaratório da interpretação.
Classificações ajudam a pensar, mas podem se tornar cárceres quando confundimos categorias com o real que elas tentam organizar.
A passagem do tempo deixa de ser argumento para recuo e vira matéria de confronto.
Ouça a agressividade controlada da voz e a musculatura roqueira do arranjo.
Envelhecer não é simplesmente perder possibilidades: é mudar a relação com limite, repetição, memória e urgência.
A mudança de opinião é apresentada como vitalidade, em oposição à obrigação de sustentar uma identidade imutável.
Ouça como Ney transforma o manifesto de Raul em uma ética da mobilidade.
Revisar-se não é necessariamente incoerência; pode ser fidelidade ao fato de que experiência e mundo continuam mudando.
A canção impede que a exuberância do espetáculo produza cegueira social: há corpos que não podem esperar pela metáfora.
Preste atenção aos sopros e à repetição insistente, quase acusatória.
Uma ética da liberdade que ignora condições materiais corre o risco de virar privilégio. O corpo político também sente fome.
Ney desloca a canção romântica para um terreno onde cuidado, desejo e vulnerabilidade se misturam.
Ouça a economia da interpretação e a recusa de sentimentalismo excessivo.
Precisar do outro não elimina autonomia; a vulnerabilidade pode ser condição de vínculo, desde que não seja convertida em posse.
A pergunta permanece aberta e por isso é produtiva: em vez de explicar excessos, ela os expõe.
Ouça a fricção entre confissão, ironia e ataque roqueiro.
Há perguntas sobre nós mesmos que funcionam melhor como investigação contínua do que como diagnóstico definitivo.
Em “Tigresa”, desejo e autonomia se chocam: a personagem é intensamente vista e desejada, mas também narra mudanças, escolhas e um futuro que pretende inventar.
Ouça como a melodia alterna sedução e distância narrativa. A sensualidade não reduz a personagem a objeto; ela conserva mobilidade, memória e projeto.
O problema é o estatuto do outro sob o olhar. Beauvoir ajuda a distinguir ser visto como objeto e existir como transcendência: a tigresa é descrita e desejada, mas também age, muda e imagina um lugar que ainda não existe. A canção não elimina a objetificação; ela a deixa em tensão com a autoinvenção.
Os 30 cards dão amplitude; estes 12 textos desaceleram. Cada miniensaio termina com uma pergunta para continuar ecoando durante o show.
Quando Ney reaparece em “Sangue Latino”, não está apenas reencenando o Secos & Molhados. A música carrega a memória de uma estreia pública em que voz, maquiagem, corpo e ambiguidade desmontavam categorias que pareciam naturais. Ouvi-la décadas depois produz um efeito particular: a obra envelheceu, mas sua identidade nunca ficou presa ao momento de origem.
O interesse filosófico está na ideia de pertencimento. “Latino” pode virar rótulo totalizante, mas a interpretação de Ney faz o contrário: pertence sem se deixar reduzir. Há mistura, conflito, teatralidade e história. A identidade vale menos como essência escondida e mais como forma de assumir uma herança sem fingir que ela é homogênea.
No Maracanã, repare no corpo tanto quanto na voz. A canção não é apenas dita: ela é encarnada. É justamente essa encarnação que impede a identidade de virar definição abstrata.
A tensão aqui também é política: identidades coletivas podem oferecer pertencimento e, ao mesmo tempo, excluir aquilo que não cabe em sua imagem oficial. A força de uma identidade não precisa vir da pureza, mas da capacidade de incorporar conflito sem deixar de produzir reconhecimento.
“O Vira” sobrevive porque sua repetição não é imobilidade: é giro. A canção cria uma estrutura circular em que o corpo pode entrar, perder por instantes a necessidade de controle e experimentar outra relação com si mesmo.
Ney sempre fez da metamorfose mais que um tema. Figurinos, maquiagem, registros vocais e modos de andar em cena mudam sem que por isso desapareça uma assinatura reconhecível. Isso permite pensar uma identidade paradoxal: reconhecemos Ney justamente porque ele não se fixa.
A repetição da música, então, não pede que voltemos ao mesmo lugar. Ela mostra que repetir também pode ser transformar.
Essa leitura aproxima a canção de uma ontologia do devir: mudar não é um acidente que acontece a uma essência pronta. A própria continuidade pode ser feita de variações. O desafio passa a ser reconhecer uma forma através de suas transformações, e não apesar delas.
“Homem com H” parece, na superfície, brincar com um código popular de virilidade. Nas mãos de Ney, porém, o código fica grande demais para continuar invisível. Corpo, voz e ironia fazem a masculinidade aparecer como performance.
A força da interpretação não depende de negar que existam diferenças corporais. O alvo é outra coisa: a passagem automática do corpo para um roteiro obrigatório de gestos, desejos e comportamentos. Ao exagerar o roteiro, Ney mostra que ele foi aprendido.
Num estádio, esse jogo ganha escala coletiva. Milhares de pessoas reconhecem a norma ao mesmo tempo em que celebram quem passou a vida desobedecendo a ela.
O ponto filosófico não é dizer que gênero é mero teatro voluntário. É perceber que normas corporais ganham aparência de natureza porque se repetem socialmente. A cena interrompe essa naturalização ao tornar a repetição visível — e, por isso, discutível.
A abertura de *Bloco na Rua* começa por uma ação: sair. Ney não formula uma teoria da liberdade; ele põe o corpo no espaço público. A rua aqui não é cenário neutro, mas lugar em que exposição, risco e encontro se tornam inseparáveis.
Isso importa porque muitas concepções de liberdade são excessivamente interiores. Sentir-se livre não basta quando instituições, costumes e medos organizam o que pode ou não aparecer. O bloco só existe quando deixa a intenção e ocupa a rua.
No Maracanã, a canção pode ganhar uma ironia produtiva: um estádio é espaço extremamente organizado, mas milhares de corpos cantando juntos ainda podem produzir uma experiência de presença que ninguém controla por completo.
A rua também corrige uma fantasia liberal recorrente: a de que liberdade existe plenamente antes do encontro. Agir em público significa depender de respostas que não controlamos. A liberdade ganha realidade justamente quando deixa de ser soberana.
A interpretação de “Rosa de Hiroshima” coloca uma melodia delicada diante de uma memória histórica quase insuportável. O risco seria estetizar a destruição; a força da canção está em não permitir que beleza e horror se reconciliem facilmente.
A arte tem aqui uma função cognitiva. Estatísticas podem informar a escala de uma catástrofe, mas não garantem experiência moral. A canção reorganiza atenção e imaginação: obriga o ouvinte a permanecer por alguns minutos diante do que seria mais confortável converter em dado.
Ney canta sem transformar a tragédia em demonstração vocal. A contenção é parte da ética da interpretação.
A pergunta ética permanece sem solução confortável: a forma estética pode preservar memória e, ao mesmo tempo, produzir prazer. O trabalho responsável talvez consista menos em eliminar essa contradição do que em impedir que o prazer formal apague a realidade histórica que tornou a obra necessária.
“Poema” se tornou uma das pontes mais fortes entre Ney e Cazuza. Quando Ney canta uma obra ligada a alguém que morreu, a interpretação não funciona como reprodução arqueológica. A ausência passa a agir no presente.
Isso muda a maneira de pensar memória. Lembrar não é conservar uma imagem intacta numa vitrine interior. Cada lembrança seleciona, reorganiza e transforma; o morto permanece justamente porque altera a vida de quem continua.
A disciplina vocal de Ney é crucial: o afeto é grande, mas não dissolve a forma. A música mostra que intensidade e medida não são opostas.
Luto, então, não é apenas perda de presença; é transformação do vínculo. Continuamos falando com mortos por meio de escolhas, hábitos e critérios herdados. O perigo está tanto em esquecê-los quanto em impedir que o presente adquira novos interlocutores.
A canção produz uma inversão poderosa: a acusação de loucura pode dizer mais sobre a sociedade que acusa do que sobre quem é acusado. Ney amplifica essa ambiguidade com humor, vulnerabilidade e desafio.
Filosoficamente, o ponto não é romantizar sofrimento psíquico. É distinguir experiência clínica de uma operação social muito mais ampla: chamar de “anormal” aquilo que ameaça convenções. Toda sociedade cria fronteiras do aceitável; o problema começa quando as trata como natureza.
Ney fez carreira justamente na região em que normas de gênero, voz, figurino e desejo perdem aparência de inevitabilidade.
Toda normalidade contém uma dimensão estatística e outra normativa. O fato de algo ser frequente não prova que seja bom; o fato de ser raro não prova que seja patológico. A arte ajuda justamente a separar diferença, sofrimento e desvio moral — coisas que sociedades frequentemente misturam.
“Mal Necessário” parece escrito para uma presença artística que nunca coube em dicotomias simples. O personagem pode ser remédio e veneno, proximidade e risco. Ney sustenta os contrários sem se apressar em resolvê-los.
Isso oferece uma alternativa à obsessão contemporânea por identidades totalmente coerentes. Pessoas reais acumulam compromissos, impulsos, memórias e papéis que nem sempre formam um sistema limpo. Tentar expulsar toda contradição pode gerar mais falsificação que clareza.
A interpretação ganha força quando não escolhe um lado definitivo. O ouvinte precisa permanecer na ambivalência.
Aceitar ambivalência não significa abandonar critérios. Podemos reconhecer que somos contraditórios e ainda perguntar quais contradições enriquecem a experiência e quais produzem dano repetido. A complexidade humana não nos absolve; ela torna a responsabilidade mais sofisticada.
Arnaldo Antunes oferece a Ney uma palavra que parece condensar toda a carreira: “inclassificáveis”. A canção não diz que categorias são inúteis; mostra que nenhuma delas dá conta da mistura real de origens, corpos, influências e desejos.
Classificar é uma operação necessária do pensamento. O problema começa quando esquecemos que a categoria foi criada por nós e passamos a exigir que o mundo caiba perfeitamente nela. Nesse momento, o instrumento de compreensão se converte em norma.
Ney fez do palco um laboratório dessa insuficiência: masculino e feminino, popular e erudito, rock e MPB, tradição e escândalo deixam de funcionar como compartimentos estanques.
Há ainda um problema epistemológico: toda categoria ilumina algumas diferenças e escurece outras. Pensar bem exige usar classificações sem esquecer sua condição de ferramenta. O real sempre sobra um pouco para fora do conceito — e essa sobra é filosoficamente preciosa.
Para uma turnê chamada “85 Anos de Ousadia”, “O Tempo Não Pára” ganha uma espessura especial. A canção de Cazuza fala do tempo como força que atravessa o corpo e o mundo, mas a interpretação de Ney recusa a conclusão de que envelhecer seja sinônimo de retirada.
Idade é fato biográfico; “velhice” também é construção social carregada de expectativas sobre desejo, aparência, risco e visibilidade. A questão não é negar limites físicos, mas recusar que eles venham acompanhados de um roteiro moral obrigatório.
Quando Ney sobe a um estádio aos 86 anos em dezembro de 2027, o corpo real não precisa fingir juventude para contradizer a ideia de que ousadia pertence apenas aos jovens.
A idade, nessa perspectiva, não é apenas número acumulado, mas espessura temporal. Cada nova interpretação carrega versões anteriores sem repeti-las. O passado não fica atrás; entra como memória ativa na forma presente do corpo e da voz.
“Tem gente com fome” interrompe qualquer leitura de Ney que reduza liberdade a estilo pessoal. O poema de Solano Trindade traz o corpo material de volta ao centro: fome não é metáfora, e desigualdade não se resolve por autenticidade individual.
Isso cria uma tensão produtiva com o restante do repertório. A autonomia importa, mas ninguém age num vácuo. Recursos, instituições e oportunidades moldam o campo real de escolha. Uma filosofia da liberdade que ignore isso corre o risco de descrever apenas a experiência dos privilegiados.
No espetáculo, metais e repetição dão à música caráter de denúncia sem transformar o palco em palanque simplista.
Por isso, a liberdade precisa ser pensada em graus de capacidade efetiva. Dizer que todos podem escolher ignora que escolhas custam recursos, segurança, tempo e saúde. Uma ética que não incorpora essas diferenças corre o risco de universalizar a experiência dos mais protegidos.
“Tigresa”, de Caetano Veloso, apresenta uma personagem carregada de sensualidade, memória e contradição. Ela é vista por um narrador fascinado, mas não cabe inteiramente no retrato que ele faz.
A tensão filosófica está aí: toda paixão começa selecionando traços do outro, mas corre o risco de transformar uma pessoa em personagem de nossa própria narrativa. Beauvoir é útil porque lembra que o outro não é apenas objeto do meu mundo; ele também é projeto, liberdade e futuro.
Na interpretação de Ney, a questão se torna ainda mais instável. A voz que descreve a mulher vem de um artista que deslocou por décadas a segurança dos papéis masculino e feminino. O olhar não desaparece, mas deixa de ser uma posição simples e soberana.
Na voz de Ney, essa tensão ganha uma dobra adicional. Um intérprete que passou a carreira desorganizando códigos de masculino e feminino canta uma personagem feminina sem estabilizar facilmente quem olha e quem é olhado. O desejo aparece como relação arriscada: precisa de imagens para começar, mas trai o outro quando passa a confundi-lo com essas imagens.
Ney antecipou “Simples Desejo” como encerramento da turnê de 2027. A escolha é fascinante porque vem depois de uma trajetória associada a excesso visual, intensidade cênica, transgressão e reinvenção contínua.
O “simples” aqui não precisa ser lido como recuo. Depois de décadas testando fronteiras, talvez simplificar seja outra forma de precisão: separar desejo autêntico de acumulação automática de objetivos. A maturidade não elimina o desejo; pode torná-lo mais seletivo.
Num estádio, encerrar assim desloca a lógica usual do clímax. Em vez de terminar no gesto mais grandioso, o espetáculo pode pousar numa medida humana.
Há algo especialmente forte em terminar um espetáculo de estádio com uma canção chamada “Simples Desejo”. Depois de décadas de ousadia visual, transgressão, voz e espetáculo, o gesto pode soar quase anticlímax — e justamente por isso ganha densidade. Maturidade não precisa significar renúncia nem diminuição. Pode ser capacidade de distinguir intensidade de acumulação. Um desejo simples não é necessariamente pequeno; pode ser aquele que já não precisa provar grandeza por quantidade, permanência ou reconhecimento.
Voz, maquiagem, androginia cênica e canção popular tornam impossível separar música de presença.
A carreira solo afirma personagem, erotismo e repertório como campo de invenção própria.
Humor e performance expõem a masculinidade como código representável — e, portanto, deslocável.
Rosto limpo, terno e repertório sofisticado mostram que a força interpretativa não depende de um único dispositivo visual.
A interpretação atravessa Cazuza, rock e memória afetiva sem perder singularidade.
O rock retorna como atitude contra compartimentos fixos de gênero, tradição e identidade.
O espetáculo costura liberdade, política, desejo e repertório de várias gerações sem virar retrospectiva.
O estádio vira teste de escala: como preservar detalhe, ambiguidade e risco num espetáculo monumental?
A Eventim lista o evento para sábado, 18/12/2027, às 19h. O horário de abertura dos portões não aparece na página consultada e não é inferido aqui.
Eventim ↗O QR code será disponibilizado apenas 24 horas antes, exclusivamente no aplicativo da Eventim.
regras ↗A Eventim informa que ingresso impresso e captura de tela não dão acesso; transferências ficam desativadas no dia do evento.
fonte ↗Discografia e documentação histórica de shows, incluindo *Bloco na Rua*, Secos & Molhados, *Inclassificáveis* e outros ciclos.
site oficial ↗Recorrência recente de *Bloco na Rua*. Usada como evidência observacional, nunca como confirmação do setlist de 2027.
estatísticas ↗Os botões de letra apontam para páginas diretas do Vagalume; os botões de áudio apontam para gravações de Ney encontradas no Spotify. “Simples Desejo” é tratada separadamente porque a busca não localizou uma gravação de Ney no Spotify.
Digite um termo e toque em Buscar.